Cruz: Instrumento de nossa libertação

 
 
 

A Igreja Católica celebra, liturgicamente, no dia 14 de setembro, cada ano, a Festa da Exaltação da Santa Cruz. A Cruz foi o lugar que Cristo escolheu para oferecer ao Pai seu Sacrifício em expiação de todos os pecados dos seres humanos, sem exceção. Sempre é bom salientar que Cristo, o Messias libertador, não foi obrigado a assumir a Cruz. Poderia tranquilamente esquivar-se, livrar-se dela e toda a situação que ela criou. Todavia, por amor e só por amor escolheu a Cruz, sinal e instrumento de ignomínia (vergonha pública) e execração dos maiores facínoras, para transformá-la em sinal e instrumento de nossa libertação.

Deste modo, a Cruz de objeto de desprezo Jesus – por sua obediência até à morte e morte de cruz – exaltou-a, tornando-a motivo de glória, símbolo de missão cumprida e de doação/entrega extrema. Na Sexta-Feira Santa, no Tríduo Pascal, a Igreja contempla, dando mais ênfase, a Paixão, Crucifixão e Morte.  Com a celebração da Festa da Exaltação da Santa Cruz, em data e festa próprias, a Igreja proclama o caminho que todo discípulo é chamado a seguir e testemunhar. Jesus mesmo fez a proposta, a versão de Lucas diz: “Se alguém quiser me seguir, renuncie a si mesmo, tome sua cruz de cada dia, e então me siga” (Lc 9,23). E acrescenta: “Quem não carrega sua cruz e me segue, não pode ser meu discípulo” (Lc 14,27). Na versão de Mateus, explicita: “Quem não toma sua cruz e não me segue, não é digno de mim” (Mt 10,38). Na Festa da Exaltação da Santa Cruz celebra-se e apresenta-se a Cruz como fonte de santificação e símbolo da vitória de Cristo sobre o pecado e a morte.

 

O caminho da Cruz

Com a Festa litúrgica da Exaltação da Santa Cruz, a Igreja quer não só lembrar, mas, sobretudo, apresentar a Cruz como caminho do seguimento de Cristo Vencedor e Triunfante sobre o pecado e a morte. A Igreja, alicerçada na Palavra de Deus e na Tradição, na liturgia e na ação pastoral mostra a Cruz como sinal e símbolo de doação máxima a Deus e ao próximo, a exemplo do Cristo. A Cruz, então, não pode ser vista e tida, como alguns a proclamam: sinal e símbolo de dor e sofrimento e só. A teologia católica vai muito além desta constatação e vê e tem a Cruz como caminho de seguimento de Jesus, em sua entrega ao Pai e aos irmãos. Jesus cumpriu esta missão, desde sua concepção, ao entrar no mundo: “Então eu disse: eis-me aqui, ó Deus, para fazer a tua vontade” (cf. Hb 10,5-10), até a morte de cruz, extrema entrega não guardando para si nada. Nem sua Mãe. Portanto, a Cruz não é realidade pontual no final de sua Vida no lenho, é a expressão e a manifestação máxima de sua missão libertadora, salvadora, redentora.

O seguimento de Jesus para o discípulo, necessariamente, passa pela assunção da cruz como caminho para realizar, com Ele, a missão de construtor da Boa Nova do Reino de Deus. Para o discípulo, a celebração da Exaltação da Santa Cruz apresenta liturgicamente o grande tesouro do cristão, porque na verdade, de nome e de fato, é o bem mais precioso. Pois, na Cruz está a plenitude de nossa salvação e, por ela, foi-nos restituída a dignidade original. Por isso, a Cruz é o “certificado” da sentença de libertação da humanidade. Sem ela não teria sido vencida a morte. De instrumento de condenação, em Jesus e com ele, manifesta-se Instrumento de Salvação, de Libertação.

A Cruz, então, é a Glória e a Exaltação do Cristo. A Cruz é a síntese de sua vida e de sua missão. Foi ele mesmo que proclamou: “Se me glorificasse a mim mesmo, a minha glória seria vã. Meu Pai é que me glorifica, aquele que dizeis ser vosso Deus” (Jo 8,54). Jesus afirma: “Chegou a hora na qual o Filho do Homem será glorificado. Eu vos afirmo e esta é a verdade: se o grão de trigo não cair na terra e morrer, ficará só. Se, pelo contrário, ele morrer, dará fruto” (Jo 12,23-24). Jesus, na Última Ceia, antevendo a traição de Judas e sua morte na Cruz, afirma: “Agora foi glorificado o Filho do homem, e Deus foi glorificado nele. Se Deus foi glorificado nele, Deus também o glorificará em si mesmo e o glorificará dentro em breve” (Jo 13,31-32).

São Paulo assiná-la que: “Nossa glória está na Cruz de Jesus” (Gal 6,14). A Cruz, porém, jamais pode ser dissociada da Ressurreição do Senhor. De fato, o Crucificado não permaneceu na cruz. Ressuscitou! Está vivo entre nós! A Ressurreição é que faz da Cruz sinal e instrumento gloriosos de libertação e de vida. O cristão-católico quando faz o Sinal da Cruz sobre si mesmo está manifestando sua alegria de sentir-se liberto pelo Cristo Vencedor e Glorioso e de poder segui-lo e partilhar sua vida como discípulo (cf. Fl 3,17-21).

A Cruz de Nosso Senhor recebeu do Filho de Deus, nela pregado, novo sentido e significado: da ignomínia à Gloria e tornou-se caminho de santidade para o discípulo-missionário, engajado numa comunidade eclesial.

Pe. Adilson José Colombi, scj

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